domingo, 25 de setembro de 2016

Sobre medo, estupro e homens que não sabem lidar

Eu estava pelo facebook e passou pela minha TL o texto "De uma vítima de estupro sobre o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro”". Ele claramente era resposta a outro texto e não demorou muito para que "Como foi transar com uma vítima de estupro" também aparecesse. Eu li os dois, na ordem em que eles parecem ter sido produzidos. Quando terminei o segundo, a página me indicou um terceiro sobre como vítimas de estupro podem ser felizes com parceiros que as apoiam, mas não li esse, estava cansada já.
Não achei nenhum dos dois textos bons. O primeiro tem um tom de mea culpa acompanhada de uma inocência que eu não consigo realmente acreditar, eu só penso "you know nothing". Eu achei o cara bem filho da puta em vários aspectos, na verdade. O segundo traduziu minha descrença, mas fez isso com um certo tom de agressividade acusatório com o qual eu não consigo concordar totalmente também. Embora entenda o que a autora pensa e sentiu para escrever dessa forma, não compartilho totalmente.
Mas, dos dois textos, eu tirei uma dúvida e um medo que, como vítima de estupro que sou, me assombra: será que algum homem consegue lidar com uma mulher que foi vítima de estupro?
Não digo capaz de transar, como tratam os textos, isso vários são - a maioria, eu diria. É muito fácil transar com uma mulher que foi vítima de estupro: é só ignorar o que ela sente. O carinha da praia do primeiro texto fez exatamente isso. O estuprador - de qualquer uma de nós - fez exatamente isso. Os respondentes da pesquisa da Folha fizeram exatamente isso. Deveria ser algo terrível, mas aparentemente isso não impede que seja uma ação muito praticada cotidianamente por muita gente.
Para transar com alguém, para gozar com alguém, até para viver com alguém, eu não preciso realmente estar com essa pessoa. Eu posso ter um nível de entrega relativo e um nível de confiança relativo, sempre me resguardando para a possibilidade dessa pessoa, em algum momento, ignorar o que eu sinto em prol do próprio bem estar.
Mas não é isso que eu quero. Eu quero um dia poder me entregar pra alguém, poder confiar em alguém, poder realmente estar com alguém. E, para isso, por mais que eu consiga lidar com meus medos, com minha sexualidade, com as minhas inseguranças - algo que eu não sei se um dia vou conseguir e preciso que a pessoa que está comigo entenda isso também - eu preciso que esse alguém consiga lidar com o fato que eu fui vítima de estupro.
Antes de ler esses textos hoje eu sentia culpa por desejar isso: estar do lado de alguém que entenda, com quem eu realmente possa compartilhar, de alguma forma, o que aconteceu. Que meu passado e meus traumas são um problema meu e que eu não posso esperar que uma outra pessoa lide com eles, outra pessoa não precisa desse peso.
Mas esses textos me ajudaram a perceber que eu não quero estar com alguém que me beije e transe comigo quando eu contar que fui estuprada. Eu quero alguém que se importe e se preocupe com o que eu sinto. E que esperar isso não é pedir muito.
Só que eu não acredito que haja algum homem capaz de lidar com uma mulher vítima de estupro.
E esses textos só reforçam isso.

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