sexta-feira, 4 de maio de 2012

Tudo junto separado



Eu sou mulher. Eu sou bissexual. Eu sou gorda. Eu sou alta. Eu sou agnóstica. Eu sou nerd.

Eu poderia dizer que essas definições são rótulos e eu sou muito mais do que tudo isso, e eu não estaria mentindo, mas hoje eu entendo que simplesmente ignorar essas definições é também ignorar as consequências que ser tudo isso traz para mim. 

É irônico pensar que, antes de escrever o parágrafo acima, eu ia comentar algo sobre nunca ter sofrido atos de preconceito devido a essas definições. Mas então eu parei, pensei um pouco, e percebi que isso não é verdade. Muitas vezes as pessoas que me agrediram ou me ofenderam por eu ser o que sou me fizeram acreditar que não era nada, que era normal, que eu não deveria me sentir agredida e ofendida porque ou elas mesmas não estavam cientes do quanto agir assim era ofensivo ou porque a sociedade e minha própria criação diziam que não era. Mas era. 

Esse é o mesmo tipo de dificuldade que eu sinto com relação a me sentir abusada, como eu postei aqui. É um questionamento decorrente para mim, sobre o meu direito de me sentir de certa forma. Às vezes eu acredito que é por eu ser racional demais que eu me permito questionar o meu direito de sentir, às vezes eu culpo a rigidez com que eu fui criada, mas, de certa forma, eu sei que isso é um tipo de agressão. E isso não é bom.

Hoje eu me peguei em um momento de questionamento desse tipo, e foi muito confuso. Eu estava comentando com uma amiga sobre dois sites que eu tenho seguido, twittado e comentado, o Garotas Nerds e o Garotas Geeks, e a minha expectativa era que minha amiga, mulher e nerd como eu, gostasse dos sites. Mas a resposta dela foi que ela não gostava desse tipo de distinção, de "coisas para garotas", e isso me deixou perdida.

Há pouco tempo, eu passei por uma grande crise sobre ser feminina. Entre ser grande e desengonçada demais, ter dificuldade para arrumar roupas e sapatos, não saber me maquiar e ter um histórico de relacionamentos confuso e complicado, eu me vi sem saber o que ser mulher significava. Hoje eu sei que ser mulher está muito além disso, e inclusive ser mulher e ser feminina são conceitos diferentes, e eu consegui encontrar não uma definição, mas um parâmetro muito pessoal para o que eu sou, entre aquilo que a sociedade diz que eu devo ser, aquilo que as pessoas próximas a mim esperam que eu seja e aquilo que eu realmente quero ser. E isso foi muito difícil.

Garotas Nerds e o Garotas Geeks são legais para mim também por isso. Eles trabalham com o conceito de nerd/geek que, mesmo de forma estereotipada, são masculinizados. Mesmo que esse estereótipo não atribua ao nerd uma figura máscula, ainda assim é um homem, e o motivo para isso pode ser encontrado em fatos como a mulher ainda possuir em média uma menor escolaridade que o homem na nossa sociedade ou atividade como ler, jogar videogame, gostar de HQs e filmes de ação serem estimuladas na infância muito mais a meninos do que a meninas, ou mesmo áreas do conhecimento como informática, tecnologia, astronomia, física, matemática e outras associadas à cultura nerd serem ainda exercidas em sua maioria por homens. Por isso ver que o número de mulheres nerds está crescendo é bom, porque significa não só uma quebra do estereótipo como um questionamento social do acesso à cultura e a esse nicho de informações sem distinção de gênero. E, como mulher e como nerd, é bem legal ver elementos femininos, como estampas de sapatos ou tutorial para unhas baseadas nessa cultura.

Diferente da minha amiga, eu não vejo uma distinção de gêneros nesses sites, mas sim uma união. Mas ela me fez questionar se isso era real. Por esse ato de questionamento ou mesmo pelas minhas definições de gênero serem tão recentes para mim, em geral eu sinto que não tenho conhecimento sobre para sequer começar a pensar no assunto, por isso os tópicos de discussão do 6v e blogs como o Minoria é a mãe costumam ser bons refúgios para me fazer pensar e buscar as perguntas certas a serem feitas.

Eu dou aula de redação e, entre tantos outros assuntos, sexismo, sexualidade e educação sexual são temas que eu trabalho em sala de aula. Meus próprios questionamentos me fazem muitas vezes me sentir despreparada para ensinar qualquer coisa a respeito para alguém, mas, ao mesmo tempo, eu sinto que meus alunos, tão jovens e em formação, precisam ser perturbados sobre esses assuntos, para que eles mesmos se questionem e busquem suas próprias respostas, como eu faço. E, em contraponto, eu me pergunto se há realmente alguém suficientemente preparado para ensinar para outras pessoas o que é ser mulher, o que é ser homem, o que é sexualidade e o que é sexo. São conceitos, sim, trazidos fortemente pela sociedades e nos empurrados com uma série de parâmetros de comportamentos aceitáveis ou não. Mas são, por outro lado, conceitos construídos também a partir de experiências pessoais, e embasados sobre o querer de cada um, que pode até ser coincidente com o que impõe a sociedade, e ainda assim há a necessidade de questionar por que isso é imposto.

Eu sou mulher, bissexual, gorda, alta e agnóstica, fruto de uma família e de uma sociedade sexista e cristã, e eu sofro diariamente uma série de agressões por causa disso, seja pelo meu pai que se recusa a lavar a louça que ele mesmo suja, seja pela minha dificuldade de passar pela catraca de um ônibus, seja pelo fato de que eu conheço somente uma única loja em todo o estado de São Paulo onde eu encontro sapatos com lacinhos no meu tamanho para vender, seja pela imposição da minha mãe de eu manter uma bíblia em casa, seja pelo comentário da minha irmã quando eu coloco uma saia mais curta. 

E eu sou nerd. E, ao perceber hoje que isso se trata de um novo grupo minoritário ao qual eu me somo, me fez perceber também como esses grupos minoritários se fundem e se somam. Eu não consigo ser mulher, gorda e nerd, uma coisa de cada vez. Eu sou tudo ao mesmo tempo. O que me leva ao fato de que todos aqueles que são classificados como minorias, se somados, são uma imensa maioria, e que a sociedade deixa de atender a essa imensa massa de pessoas de alguma forma, todos os dias.

Questionar, identificar problemas e agressões, buscar soluções e mudanças é necessário, e eu acredito que cada um tenha suas próprias necessidades e diretrizes. E muitas vezes separar tanto em grupos e conceitos só cria mais restrições e distâncias.

E pode ser que eu esteja errada, mas é no que eu acredito hoje.

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